Iniciei o meu estágio
em um hospital há um pouco mais de dois anos. Lá estive frente à várias
situações, histórias de vida daquelas que traziam dor, medo, esperança. Era um
infinitude de sentimentos e emoções. Foi um espaço e foram pessoas que me
ensinaram muito sobre a vida, sobre a sua essência e me inspiraram a encontrar
grandeza nas coisas mais simples que há de existir.
Hoje, mexendo na
minha bagunça, deparei-me com esse papelzinho aqui. Foi como ter voltado àquele
momento. Cheguei ao hospital e lá fui
conversar com uma das minhas supervisoras, Laís Campos. Foi quando ela, com
todo o seu cuidado, me falou que a nossa paciente que estava internada há meses
na UTI teria falecido no último final de semana. Não sei se ela percebeu, mas
me segurei para não chorar.
Maria foi o codinome
que escolhi por questões éticas de preservação da identidade da paciente e
também por questões afetivas que tenho a este nome. E como diz a canção, ela
tinha força, ela tinha raça, ela trazia no peito essa marca. Maria teria lutado
dia-a-dia por meses naquele hospital. Maria fez amizade com a equipe de saúde.
Maria tinha um sorriso fácil, era uma mulher doce. Maria era Maria. Maria
deixou saudade.
Sim! Eu senti muito
pela sua perda. Sim! Eu fiquei no dilema: CHORAR x NÃO CHORAR.
Era uma
segunda-feira, na sexta-feira, eu teria feito o último atendimento. Lembro que
fiz a evolução, cheguei em casa e escrevi sobre o que senti. Ao chegar em
casa, eu escrevi isso. E deixo claro que não sou muito boa com as palavras, mas
o gosto de fazer. Foi um jeito que aprendi de trabalhar as minhas
angústias.
Escrevi esses
pequenos e singelos versos para falar de Maria e com o tempo fui reconhecendo
os olhos dela em outras Marias e em Josés também.
"Por vezes brilham, de um jeito encadeiam
Sorriem mais do que a boca
Eles falam, ele tem disso
Mas, é preciso perceber:
Nossos olhos falam da nossa alma,
E assim como o sorriso
Eles também trazem dor.
Nossos olhos trazem vida
Mas, de alguma forma, eles anunciam a nossa finitude
Eles nos dizem: Chegou a minha vez!
É a minha hora. É fim!
É o fim da vida.
Eles já não brilham mais.
E o fim da vida é dor
É dor pra quem vai (e sabe que vai)
Mas é também sossego (parte que acrescento hoje)
É dor para quem fica
É dor para quem precisa aprender sem
Mas é sossego também."

