quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Em memória aos olhos de Maria (NOME FICTÍCIO)

Iniciei o meu estágio em um hospital há um pouco mais de dois anos. Lá estive frente à várias situações, histórias de vida daquelas que traziam dor, medo, esperança. Era um infinitude de sentimentos e emoções. Foi um espaço e foram pessoas que me ensinaram muito sobre a vida, sobre a sua essência e me inspiraram a encontrar grandeza nas coisas mais simples que há de existir. 
Hoje, mexendo na minha bagunça, deparei-me com esse papelzinho aqui. Foi como ter voltado àquele momento. Cheguei ao hospital e lá fui conversar com uma das minhas supervisoras, Laís Campos. Foi quando ela, com todo o seu cuidado, me falou que a nossa paciente que estava internada há meses na UTI teria falecido no último final de semana. Não sei se ela percebeu, mas me segurei para não chorar. 
Maria foi o codinome que escolhi por questões éticas de preservação da identidade da paciente e também por questões afetivas que tenho a este nome. E como diz a canção, ela tinha força, ela tinha raça, ela trazia no peito essa marca. Maria teria lutado dia-a-dia por meses naquele hospital. Maria fez amizade com a equipe de saúde. Maria tinha um sorriso fácil, era uma mulher doce. Maria era Maria. Maria deixou saudade. 
Sim! Eu senti muito pela sua perda. Sim! Eu fiquei no dilema: CHORAR x NÃO CHORAR. 
Era uma segunda-feira, na sexta-feira, eu teria feito o último atendimento. Lembro que fiz a evolução, cheguei em casa e escrevi sobre o que senti. Ao chegar em casa, eu escrevi isso. E deixo claro que não sou muito boa com as palavras, mas o gosto de fazer. Foi um jeito que aprendi de trabalhar as minhas angústias. 
Escrevi esses pequenos e singelos versos para falar de Maria e com o tempo fui reconhecendo os olhos dela em outras Marias e em Josés também. 

"Por vezes brilham, de um jeito encadeiam 
Por vezes sorriem
Sorriem mais do que a boca
Eles falam, ele tem disso
Mas, é preciso perceber:
Nossos olhos falam da nossa alma,
E assim como o sorriso
Eles também trazem dor.
Nossos olhos trazem vida
Mas, de alguma forma, eles anunciam a nossa finitude
Eles nos dizem: Chegou a minha vez!
É a minha hora. É fim!
É o fim da vida. 
Eles já não brilham mais.
E o fim da vida é dor 
É dor pra quem vai (e sabe que vai) 
Mas é também sossego (parte que acrescento hoje)
É dor para quem fica
É dor para quem precisa aprender sem
Mas é sossego também." 



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